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terça-feira, dezembro 07, 2004


Jorge Palma no 'Primeiro de Janeiro'


“Eh pá... grande invenção a música”

Jorge Palma mudou e diz que mudou. As entrevisas sobre o novo disco, “Norte”, falam tanto da sua vida pessoal como da sua música. Mas o próprio admite que elas são indissociáveis. O álcool está para trás mas o passado não traz arrependimento, “já que ele não serve de nada”.

“Fechei os olhos e previ o que encontrei / e foi nessa viagem que percebi que não estou só”. Jorge Palma não está só, mesmo depois do álbum com o mesmo nome que lhe deu a maior projecção de sempre de forma individual. Só ao piano, gravado em estúdio de uma só vez, sem repetições. “Viagem na palma da Mão” é o tema a que nos reportamos. É ao piano que se sente bem ainda hoje, e é com outra forma de vida que se sente melhor. Falar da sua música é recordá-lo ao piano, mas também à guitarra eléctrica no Palma’s Gang ou num “Estou agarrado a ti” com os Censurados. Para muitos dos seus seguidores o eléctrico foi o primeiro que ouviram, e só depois os originais. “Acho que é sempre possível muita gente nova que se interesse. O Palma’s Gang e o trabalho com os Censurados abriram portas para determinado público que acharia a música interessante pelos arranjos das canções originais, vestidas com roupagem eléctrica. E vibraram. Aconteceu, de facto. Há de tudo, quem me goste de ouvir ao piano ou com uma banda...”, diz Jorge Palma depois de uma pequena actuação na Fnac do NorteShopping para apresentar o seu novo álbum, “Norte”. Mas já muitas vezes vimos Palma com a guitarra. Os seus espectáculos sempre assentaram na variante piano/guitarra. O cantor chegava a perguntar ao público qual o instrumento a usar? Mas insiste que é ao piano que o preferem. Aí perguntamos:
– “E à Guitarra também? Olha a versão da ‘Maçã de Junho’ por exemplo?”
“Achas? Defendo-me com a guitarra mas tenho consciência das minhas limitações. Acompanho-me bem por ter a escola folk ou country. Mas sim, é verdade que tenho muitas horas de voo como guitarrista”.
“Norte” levou a um sábado à tarde centenas de pessoas para um espaço exíguo. Depois de cerca de dez músicas, numa espécie de unplugged do novo álbum gravado no estúdio de Mário Barreiros, houve mais de uma hora de autógrafos com fotografias dos telemóveis de última geração e raparigas de 18 anos a fazerem vento sobre as caras dizendo “não acredito não acredito”. E Palma ali tão acessível, abraçando os mais velhos e os mais novos, olhando sempre para as pessoas primeiro, depois para a capa do disco que autografava. Cada autógrafo é pensado, não é apenas a frase de um abraço nem a inscrição da data. “É impossível reagir de outra forma pelo apreço que tenho pelo público”. Trata quase toda a gente por tu. Aos 54 anos tem a certeza que a sua vida toma, também ela, um norte.
Um casal interrompe a entrevista num cantinho do fórum Fnac e o homem de chapéu pede uma prenda para o Nicolau apontando para a mulher grávida. “Parabéns diz Jorge Palma, felicidades ao Nicolau”. Segue-se o abraço como se houvesse um conhecimento de anos ou simplesmente de estrada. Nada disso. Entre eles a cumplicidade de quem ouve a música, se identifica com ela e com a postura do artista.
Será sempre o «enfant terrible», não é por já não se esquecer das letras ou notas, ou por já não pedir uma garrafa de uísque para o palco que ele vai mudar a sua escrita e a sua composição. Não será por aí que lhe será retirado o cognome de «terrible».
Palma deixou o álcool mas não a estrada. As suas entrevistas vão mais à pessoa do que às questões técnicas da música, mas ele não se importa. “Têm de estar intimamente ligadas. O meu trabalho é aquilo que sou e vice-versa. Não me imagino a fazer outra actividade como espinha dorsal”.
– “Então e escritor ou poeta?”
“Tornei-me escritor à força da necessidade. Experimentei muitas coisas sozinho, mas tive a sorte de trabalhar com o Ary dos Santos, aprendi muito com ele. Claro que depois vieram as influências nas letras dos outros que entretanto apareceram”. Neste álbum foi “uma escrita automática”, diz o inventor de «Jeremias». “Tinha umas frases e ideias na cabeça. A partir do momento em que estava empenhado nisto, o meu interior e o que se passava à volta levarem-me a reler alguns livros, a começar de folhear novos, a ouvir discos. Havendo disposição e determinação para fazer a coisa é mais fácil. Foi um trabalho muito rápido. Em três meses ficou feito. A bagagem permitiu-me trabalhar as canções como um alfaiate trabalha os fatos”.
Entretanto a Quasi vai juntar as suas letras numa edição literária: “Recebi uma mensagem de um dos responsáveis dessa compilação. Bem, ele foi buscar coisas do arco da velha. Coisas de que já não me lembrava ter algum dia escrito”.


“Norte”
“Eu já estou farto das fotografias/que me querem vender todos os dias/ os legionários mais os seus troféus no chão a sangrar (..) por isso eu tornei-me um optimista céptico (..) só quero encontrar paz”. Segunda faixa do novo álbum. “Optimista Céptico”, uma expressão ouvida da boca de José Saramago na televisão. “Sou optimista céptico... até ver”, diz Palma enquanto comenta a dissolução do Parlamento, esperando que se recupere a dignidade perdida quando as coisas parecem um circo”, não desprezando a arte circense mas sim a actuação da classe política, faz questão de frisar.
Não sabe se este álbum marcará uma viragem. Sabe apenas que vai alargar os horizontes e depois aprender jazz. “À medida que for aprofundando conhecimentos no jazz sou bem capaz de fazer um disco rock”. Ou seja, está posta de parte aquela ideia que diz que o próximo disco de cantautor será mesmo jazz. Neste caso, nada se sabe onde é que a música levará o próprio músico. “Norte” tem também poemas de Al Berto ou letras de Carlos Tê. Para o músico as parcerias são essenciais, sempre foram: “Por acaso desde o princípio que escolhi sempre a companhia de excelentes músicos”.
Mas mais do que o disco fala-se da nova forma de Palma trabalhar. De decisões que mudaram a sua vida em palco e em disco. Será uma luta mostrar mais alguma coisa? “Não houve uma intenção premeditada de mostrar mudanças da minha vida. Havendo as condições reunidas quis gravar este “Norte”, porque achei que era uma boa altura. Havia um estúdio, havia, mais uma vez, gente boa para trabalhar e havia sobretudo muitas ideias”.
Não concorda que este seja um trabalho mais cheio. Na sua discografia há sempre “coisas mais densas em termos orquestrais e outros menos ou mais rock”. “Norte” abrange e cobre uma série de influências. “Há aqui uma consistência e serenidade que não havia. É mais heterogéneo. Tem mais picos, talvez mais empolgante, será isso?” Essencialmente o músico fica-se pela descoberta de um padrão. Mas reinventar alguma coisa na sua música é um trabalho difícil, quase inimaginável depois do culto criado à volta de composições eternas. Como se as primeiras músicas dos Stones ainda sejam as mais conotadas. “Muitas vezes sei que estou a utilizar uma expressão escrita ou musical de alguém. Acontece neste disco logo na primeira canção. Sei que há ali um compasso em que estou a tocar uma coisa do Paul Simon. A partir do momento em que a música sai assim é aquilo mesmo. Sei que estou a plagiar o Simon na maior, são coincidências! Podia dar a volta, mas quando é aquilo é aquilo. Os “passos em volta” tinham de se chamar “passos em volta”, o Herberto Helder achou piada”.

Episódios
Em muitos dos concertos de Palma, tal como na apresentação na Fnac, tal como o disco heterogéneo, também o público era assimétrico nas idades. Era raro um em que Jorge não se esquecesse das letras ou das notas e o público cantava o resto, aplaudia. Uma noite no Rivoli, em concerto para comemorar um aniversário da GESTO, o cantor apoia-se nas teclas e dá um acorde contínuo, um mesmo acorde. As palavras interrompem o acorde: “Eh pá, se eu tivesse aqui uma linha de apoio ao suicídio”. Algum público ri-se, outro fica deprimido e não sabe o que pensar. Como naquele concerto de José Mário Branco a cantar o “FMI”, quando chora e chama pela mãe. Os mais novos gostam da atitude, vêem nela a fórmula de um desligado, de um anarca porreiro que ainda por cima toca a música e as palavras certas. Outros dizem que as suas qualidades se perdem, que ele cai e nunca mais se levanta.
Aquilo que parecia natural passa a ser um problema e Palma, o fora da lei, vai agora para dentro da lei combatê-la. Inicialmente mais nervoso em palco, mas com o público a colocá-lo à vontade. “Eu continuo a ser espontâneo. Tenho é a consciência da relatividade das coisas. Não me considero mais importante do que outra qualquer pessoa nem menos importante. Ninguém é mais alto nem mais baixo do que eu. Estou naturalíssimo, sinto-me melhor da forma como estou. Evidente que há pessoas que praticamente erradiquei do meu universo pela nova postura e maneira de estar. De vez em quando lá aparece um distraído que diz ‘eh pá vem aí para os copos com a gente’... não obrigado, não ‘tou nessa”.

Profundidade
«Na maior», «não tou nessa», «gajo porreiro», todas elas expressões utilizadas pelo entrevistado. Mas é o mesmo entrevistado que escreve as letras quase sem abreviaturas, com as frases compridas a encaixarem-se perfeitamente na métrica das canções. Surge a pergunta que confronta inspiração com profundidade, inspiração com um estado quase alucinado, e agora, alguém dirá alguma coisa só porque já não bebe álcool? “Percebo o que queres dizer. A mim estar em baixo não me ajuda a criar. Se eu estiver mesmo por baixo o que me apetece é descansar. Posso estar indignado ou entristecido e isso não significa estar em baixo. Aí sim podem sair textos mais inspirados por um causa própria imediata. Se estiver em baixo fisicamente ou intelectualmente prefiro pousar a caneta e as mãozinhas. E o álcool aí dava-me uma falsa energia. Por esse lado terá havido casos em que, pelo facto de estar alterado terei escrito coisas como as que escrevi, coisas que se calhar não tinham nascido. Mas aconteceu durante algum tempo, porque a partir de certa altura o álcool estava a jogar contra mim. Objectivamente isso não me ajudava em nada, nem a ser criativo nem nada que se parecesse. Ele emprestava-me a energia por alguns momentos mas depois roubava-me imenso”.
O passado não se risca e o passado musical de Palma é do melhor que se cultiva no Portugal contemporâneo. “Arrepender não adianta. As coisas aconteceram como aconteceram e acho que no fundo acabaram por correr bem. Existiram fases e situações que preferia ter feito de uma outra forma, de uma maneira mais responsável. Mas eu era o que era. Tudo aconteceu naturalmente, as alturas em que bebia mais, bebia de mais, andava mais alucinado e esquecia-me das letras. As pessoas compreenderam isso e provavelmente agora algumas estão desiludidas por eu estar mais certinho”.
– “E qual foi a forma de mostrar em palco que as coisas estavam diferentes?”
“Uma forma muito rápida. Houve umas bocas nos primeiros concertos, mas depois percebeu-se a mudança. Houve um espaço de tempo em que me sentia responsável de mais, tenso e preocupado. Um tempo em que toda a fífia, toda a nota errada me carregava. Sentia o que fazia mal mas também sentia o que fazia bem. Estava bem acordado, percebes. As pessoas ajudaram-me muito, a começar pelos mais próximos até aos companheiros de circunstância de estrada. Chegaram ao ponto de estarem com uma certa cerimónia de beber à minha frente... quero que toda a gente se divirta, não me incomoda nada. Agora dou mais valor ao tempo e à qualidade da conversa. Às vezes sinto que estou a perder tempo e afasto-me”.
Tudo isto surge na ultrapassagem dos 50 anos. O músico diz que tem tempo e quer absorver tudo. Não quer voltar a virar as costas às coisas, como diz que fazia, mas reafirma que não deixa de ser espontâneo. Longe no tempo mas não na atitude, recorda-se a viola e as canções no Metro de Paris. Estará agora a iniciar uma nova aventura? “Lembro-me dessa época com muita saudade pela aventura constante, pelo imprevisto sempre ao virar da esquina, foi uma coisa muito boa. Já tinha pisado palcos, já tinha gravado discos, já tinha iniciado estudos no conservatório, mas a minha vida tem sido ‘um deixar-me levar’ pela maré dos acontecimentos e pela perspectiva do que estava a acontecer à volta. Quando arranquei pela estrada para Paris, já com 27 anos, isso significou um certo fastio em relação ao que estava a acontecer em Portugal e à minha vida em geral. Apeteceu-me, estava com boa idade para isso. Foi muito importante porque deu-me estrutura e autoconfiança para a minha maneira de estar actual. Continuo a fazer vida na estrada, passo a vida em hotéis, a fazer muitos quilómetros, mas continuo a gostar disto de viajar. Tanta coisa é uma loucura mas enquanto há energia é porreiro (interrompemos para cantarolar ‘enquanto houver estrada para andar a gente vai continuar’)... sim sim, estrada para andar e essencialmente gente porreira.

Psicoterapia
A parte clássica do autor do “Tempo dos Assassinos” nunca se soltou. Inclusivamente é um suporte de composição, um suporte de mistura de vários géneros que de uma forma simples podem percorrer Brecht ou Kurt Weil. Falamos dos compositores clássicos, da necessidade de se compor para se ser amado. “Eles eram carentes, tiveram vidas complicadas. Todos nós temos, cada um à nossa maneira e a música acaba por funcionar como psicoterapia, como sublimação, como viagem, como meio de te acalmares. Às vezes as pessoas enfrentam momentos que parecem becos sem saída, desde o nível económico ao afectivo. Mas parafraseando Caetano Veloso digo ‘como é bom tocar instrumento’. Nem que seja por poucos minutos os medos e as angústias ficam mais transparentes, mais apagadas... a música é uma grande invenção!
De certeza que nas actuações de “Norte” vão existir pedidos para “Bairro do Amor”, “Frágil” ou “Estrela do Mar”, mas será tudo normal. Jorge Palma é o mesmo na música, sente-se mais profundo. Antes tinha o seu destino numa viagem na palma da mão de alguém e agora sente que não: “Fui sempre entregando o meu destino aos deuses e às circunstâncias. Adaptar-me a elas era muitas das vezes a maneira de dizer não, e essa maneira era virar as costas. Estou mais consciente enquanto cidadão, enquanto ser humano. Estou mais determinado a participar nem que seja só a fazer canções... O que já é alguma coisa”.






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