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terça-feira, dezembro 07, 2004


Jorge Palma em 'Páginas Soltas'




Jorge Palma foi hoje o convidado do programa 'Páginas Soltas', da SIC Notícias, com apresentação de Bárbara Guimarães. Como é normal, o convidado fez-se acompanhar de um livro que aprecia. A escolha de Jorge Palma recaiu sobre 'Memórias de um alcoólico', de Jack London, que acabou por servir como mote para a conversa.


LONDON, Jack 2001 — Memórias de um alcoólico. John Barleycorn, Antígona

Para já, como autobiografia, este relato tem um bom protagonista: a pessoa fantástica que foi Jack London — o destemor, a obstinação, a resistência física, o orgulho, a inteligência, a aventura são ele. Afinal, como se London abrisse o capote e dele saíssem todas as personagens da suas obras. Mas este livro (que não foi originalmente publicado como tal, mas num periódico, em fascículos) é o relato de todas as etapas que conduzirão um não alcoólico, Jack London, (cuja química corporal nunca clamou por bebidas alcoólicas) a submeter-se a John Barleycorn (a personificação do álcool).

Beber não é, durante muito tempo, um acto voluntário, é uma imposição, é a prova de masculinidade e o único ponto de encontro da solidariedade humana. Todos bebem; bebe-se por tudo; as lembranças das grandes bebedeiras dão mais prazer que as de todos os demais feitos, verdadeiramente heróicos. John Barleycorn está em todo o lado e obriga os homens mais valorosos (porque os medíocres ele não ataca) a fazerem cenas ridículas, selváticas, assassinas, suicidárias. Entretanto, os sentimentos gloriosos, o brilhantismo das ideias, os poderes ilimitados — tudo isso John Barleycorn vai dando e é por aí que ele é mais condenável.

Curiosamente, até muito tarde, London, quando não tinha de beber, não bebia. Até ao dia em que teve o apelo cerebral para se embebedar — é aí que deixa de recear John Barleycorn. O trajecto final estava traçado: beber sozinho, todos os dias, cada vez mais amiúde — por razão nenhuma, simplesmente pela longa convivência com o álcool: por todos os cantos do mundo, todos os encontros se tinham feito com grandes bebedeiras e não podia ter sido de outra maneira — só aqui se fixa a moralidade desta narrativa.

No fim, Jack London mente, notória e impressionantemente, quando diz que continuará a beber sem se deixar cair no pessimismo céptico que lhe andou a soprar ao ouvido, insistindo que a vida é uma mentira louca. Um par de anos adiante, matar-se-ia.

crítica de Ana Martins






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